sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Blues para Jonas e Jerry





Ao filho do seu Raul






Quando meu pai morreu, a missa de 7º dia foi na Matriz de São Vicente. Tinham me deixado ler a elegia que eu tinha escrito, mas me atrapalhei com o microfone e ninguém me ouviu, apesar dos cutucões que o padre Paulo me dava e eu nem percebia, eu todo lá concentrado e inaudível, ridículo e devastado, poeta amador a toda prova. Semana passada, morreu J.D. Salinger, escritor cujo estilo busco decifrar como um filho a seu pai, imitando gestos, procurando a própria identidade no mestre. Gosto tanto de Salinger que dei de presente dois natais seguidos “O Apanhador no Campo de Centeio” à Maria Antonia, minha sobrinha, coitada.

A notícia da morte de Salinger surgiu à tarde, mas, de manhã, no táxi que peguei no Brasília Alvorada pra ir ao meu escritório no Brasil 21, vi, no bolso da porta, espremido atrás de um livro que fala mal do Sarney, outro de capa cinza, letras gelo, que diziam “O Ap...” Eu tinha passado a corrida toda em silêncio, lendo concentrado New Statesman no Kindle. Mas quebrei minha mudez para perguntar ao motorista se alguém tinha esquecido aquele Salinger ali. Respondeu que ele é que estava lendo. Rasguei meu tédio anterior com um sorriso enorme: _Muito boa leitura!, pra pensar em seguida o que sempre se pensa quando se pensa em Salinger: como vai ser quando ele morrer? Terá ele continuado a escrevendo depois da reclusão em '65?



Das nove histórias reunidas em “For Esmé, with Love and Squalor”, todos falam de “A perfect day for bananafish”, mas “For Esmé” e “Teddy” é que são sublimes. Prefiro essas nove estórias a todo o resto, apesar de a interminável cena de Zooey e a Sra. Glass no banheiro ser única na literatura universal, e estar em Franny and Zooey. No Orkut, quem diria, tive acesso a todos os outros contos dele não reunidos nos quatro únicos títulos publicados oficialmente em livro; e também a "Hapworth 16, 1924". Eram raridades. No dia da morte de Salinger, o Twitter ofereceu tudo a todos em poucos minutos. Porém, ainda fica a angústia da dúvida sobre se haverá mais o que ler dele.

O Pira, em homenagem o Salinger, postou, para os Valami Lesz (legendário grupo de discussão virtual), o poema “Funeral Blues”, de W. H. Auden. O Pira é Henrique d’Arce, foi um dos fundadores deste blog abandonado, e é de Piracicaba, então tem esse apelido. Estudamos juntos no Largo São Francisco. Hoje, ele mora em Londres e dá aulas de inglês. Nos encontramos em dezembro do ano passado. Tomamos umas “pints”, enquanto eu engraxava botas, num pub barulhento e sujo em Cavendish Square, perto do The Langham, onde morou Edgar Allan Poe e eu estava hospedado. Naquela noite, tomamos um black cab e fomos ao Soho. Chovia uma triste chuva de resignação. Dali partimos para um breve passeio pelas memórias da minha Londres feita de Bar Itália e Neal's Yard; High Holborn e Sarastro, cujo dono, que sempre me recebia com uma flute de champagne, fiquei sabendo então, morrera no ano anterior.

No poema de Auden, o autor dispensa as estrelas, manda apagar o céu, embrulhar a lua e desmantelar o sol, porque seu amor morreu. Pira e eu amávamos Salinger. Lá entre os Valamis, Pira, que fez aniversário ontem, veio com Funeral Blues para Salinger, mas também para si mesmo, que ele perdeu o pai recentemente. Juntei meu balde despejado ao dele, e postei a tradução que fiz desse mesmo poema. Tradução que li na Matriz de São Vicente, em 1997, como fecho da Elegia a Jonas Rodrigues.


Blues de Funeral


“Esquece as horas, corta o telefone.
Cala c’um osso o cão e sua fome.
Silêncio ao piano: c’um surdo tambor,
Traz o féretro, deixa entrar a dor.

Sobre as cabeças, aviões gemam sem porto,
Anunciando lá de cima: Ele está morto.
Põe um laço de crepe nas alvas pombas da praça,
E note o guarda com luvas negras, aquele que passa.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Meus dias úteis e meu domingo em festa,
Meu meio-dia e a meia-noite, minha prosa e canção;
Pensei que esse amor fosse para sempre; mas, não.

Estrelas não é mais preciso: apaga o céu.
Embrulha a lua e desmantela o sol;
Esvazia o oceano, derruba a mata;
Pois tudo agora não vale mais nada”.



Caio Leonardo, filho de Jonas, leitor de Jerry

2 comentários:

Clarissa disse...

Pensei em ti quando soube da morte dele...

Susan Blum disse...

a primeira vez que ouvi este poema, foi em um filme maravilhoso...
desde então tenho buscado-o para guardar para futuras grandes perdas...
mas não cahava!
Obrigada por este belo presente!
tenho o apanhador no campo de centeio e até fiz um texto sobre isso...
ADORO Salinger!
Obrigada mesmo!