O que achas de filmes como Base moi e Irréversible. Grotestos, superestimados ou complexo na construção dos personagens e desenvolvimento do roteiro?
Há uma tendência de abandono do ator pelo cinema norte-americano, cada vez mais refém do croma-key, da digitalização, das personagens virtuais.
Irréversible vai na contra-mão dessa tendência, ao exigir do ator algo que não se teve coragem antes de exigir - a exposição à violência física e moral extrema. Não deve ter sido fácil encerrar a cena de estupro como se aquilo tivesse sido arte e nada mais.
De um lado do Atlântico, a desfiguração do gesto do ator feito personagem pela virtualização do ato cênico. Do outro lado, a desfiguração física do ator pela violência corporal da encenação mais-do-que-presencial.
Avatar, interessante dizer, oferece uma terceira via, que é a da personagem virtual ser deselvolvida em cima do trabalho do ator - cada gesto de Neytiri, cada expressão facial nos remete à arte de Zöe Saldana.
É bem verdade que em King Kong o melhor trabalho de ator foi o do gorila. Mas Peter Jackson esteve próximo de Avatar a ponto de assinar comentários a uma edição em capa dura com imagens do filme. E competir com Jack Black é ponto para qualquer gorila.
A complexidade de roteiro de Irréversible não ilumina a violência de que se serve. Charlie Kaufman consegue - e em Hollywood - criar roteiros complexos sem que a violência seja a linha mestra.
Tudo considerado, há processos de diluição em curso. Em cantos opostos, francamente antagônicos, estão 2012 (finalmente um filme pior do que Plan 9 from Outer Space) e Irréversible, mas na mesma batalhe de diluição. Enquanto ouso dizer que Avatar, com toda a sua estereotipação do militar, do empresário, do cientista e do herói-necessariamente-americano; e Sinédoque ou outros de Charlie Kaufman são exemplos dessa outra linha, esta sim evolutiva, do cinema.
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