quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

formspring.me

Qual a maior vergonha que você já passou?

Primeiros anos de faculdade, convido a moça pra jantar na Camorra, restaurante que fez história nos Jardins, oferecia pocket-shows de commedia dell'arte e boa cozinha napolitana. Uma pena que fechou. Uma pena maior não ter fechado antes daquela noite.

Jantávamos e eu resolvi cometer um erro que nunca repeti. Comentava que eu era muito seguro de mim mesmo. E que nada me deixava envergonhado. É que tinha vindo o Pulcinella, uma das personagens da casa, e eu tinha caído na velha piada do apito - o palhaço oferece o apito, o tonto oferece a boca, e a boca acaba no dedo do palhaço, péssimo gosto (o da piada e, posso dizer, o do dedo). Ri, como se deve rir nessas horas, quando se é seguro, quando nada nos envergonha, essa balela.

Algum vinho depois, lá do fundo começou a festa de uma pessoa só. Uma moça tinha bebido muito. E entrado no espírito da casa e superado o espírito da casa e agora já era ela mesma uma festa maior do que o lugar, para constrangimento do casal que a acompanhava.

Pagaram a conta, a moça se levantou e seguiu em direção à porta. A direção da porta passava pela nossa mesa, e a nossa mesa ouvia minhas balelas sobre segurança, auto-confiança, o desastre pronto, enfim.

A moça atropelou umas duas mesas antes de se apoiar no meu ombro, olhar nos meus olhos, abrir um sorriso ensandecido e dizer: "Gostei de você, você é isso, você é aquilo, vem comigo, vamos embora". E já ia sentando no meu colo, quando o amigo a segurou. Não segurou o bastante para evitar o beijo.

A esta altura, Pulcinella estava com o dedo na própria boca, a boca da minha acompanhante estava caída sobre o fusilli à putanesca, o cantor com os poucos cabelos cheios de brilhantina desafinava a legatta a un granello di sabbia, e eu me desdizia completamente ao nem mesmo gaguejar.

Fiz inveja ao pimentão que era orgulho da cozinha da casa.

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