terça-feira, 3 de maio de 2011
This is how I feel..
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Blues para Jonas e Jerry
Ao filho do seu Raul

A notícia da morte de Salinger surgiu à tarde, mas, de manhã, no táxi que peguei no Brasília Alvorada pra ir ao meu escritório no Brasil 21, vi, no bolso da porta, espremido atrás de um livro que fala mal do Sarney, outro de capa cinza, letras gelo, que diziam “O Ap...” Eu tinha passado a corrida toda em silêncio, lendo concentrado New Statesman no Kindle. Mas quebrei minha mudez para perguntar ao motorista se alguém tinha esquecido aquele Salinger ali. Respondeu que ele é que estava lendo. Rasguei meu tédio anterior com um sorriso enorme: _Muito boa leitura!, pra pensar em seguida o que sempre se pensa quando se pensa em Salinger: como vai ser quando ele morrer? Terá ele continuado a escrevendo depois da reclusão em '65?

Das nove histórias reunidas em “For Esmé, with Love and Squalor”, todos falam de “A perfect day for bananafish”, mas “For Esmé” e “Teddy” é que são sublimes. Prefiro essas nove estórias a todo o resto, apesar de a interminável cena de Zooey e a Sra. Glass no banheiro ser única na literatura universal, e estar em Franny and Zooey. No Orkut, quem diria, tive acesso a todos os outros contos dele não reunidos nos quatro únicos títulos publicados oficialmente em livro; e também a "Hapworth 16, 1924". Eram raridades. No dia da morte de Salinger, o Twitter ofereceu tudo a todos em poucos minutos. Porém, ainda fica a angústia da dúvida sobre se haverá mais o que ler dele.
O Pira, em homenagem o Salinger, postou, para os Valami Lesz (legendário grupo de discussão virtual), o poema “Funeral Blues”, de W. H. Auden. O Pira é Henrique d’Arce, foi um dos fundadores deste blog abandonado, e é de Piracicaba, então tem esse apelido. Estudamos juntos no Largo São Francisco. Hoje, ele mora em Londres e dá aulas de inglês. Nos encontramos em dezembro do ano passado. Tomamos umas “pints”, enquanto eu engraxava botas, num pub barulhento e sujo em Cavendish Square, perto do The Langham, onde morou Edgar Allan Poe e eu estava hospedado. Naquela noite, tomamos um black cab e fomos ao Soho. Chovia uma triste chuva de resignação. Dali partimos para um breve passeio pelas memórias da minha Londres feita de Bar Itália e Neal's Yard; High Holborn e Sarastro, cujo dono, que sempre me recebia com uma flute de champagne, fiquei sabendo então, morrera no ano anterior.
No poema de Auden, o autor dispensa as estrelas, manda apagar o céu, embrulhar a lua e desmantelar o sol, porque seu amor morreu. Pira e eu amávamos Salinger. Lá entre os Valamis, Pira, que fez aniversário ontem, veio com Funeral Blues para Salinger, mas também para si mesmo, que ele perdeu o pai recentemente. Juntei meu balde despejado ao dele, e postei a tradução que fiz desse mesmo poema. Tradução que li na Matriz de São Vicente, em 1997, como fecho da Elegia a Jonas Rodrigues.
Blues de Funeral
“Esquece as horas, corta o telefone.
Cala c’um osso o cão e sua fome.
Silêncio ao piano: c’um surdo tambor,
Traz o féretro, deixa entrar a dor.
Sobre as cabeças, aviões gemam sem porto,
Anunciando lá de cima: Ele está morto.
Põe um laço de crepe nas alvas pombas da praça,
E note o guarda com luvas negras, aquele que passa.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Meus dias úteis e meu domingo em festa,
Meu meio-dia e a meia-noite, minha prosa e canção;
Pensei que esse amor fosse para sempre; mas, não.
Estrelas não é mais preciso: apaga o céu.
Embrulha a lua e desmantela o sol;
Esvazia o oceano, derruba a mata;
Pois tudo agora não vale mais nada”.
Caio Leonardo, filho de Jonas, leitor de Jerry
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Angelus por Zilda
Tristes olhos negros
vêem escombros, miséria
e um anjo caído.
Sad and sore black eyes
gaze at ruins, at misery
at a fallen angel.
Caio Leonardo
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
formspring.me
O que achas de filmes como Base moi e Irréversible. Grotestos, superestimados ou complexo na construção dos personagens e desenvolvimento do roteiro?
Há uma tendência de abandono do ator pelo cinema norte-americano, cada vez mais refém do croma-key, da digitalização, das personagens virtuais.
Irréversible vai na contra-mão dessa tendência, ao exigir do ator algo que não se teve coragem antes de exigir - a exposição à violência física e moral extrema. Não deve ter sido fácil encerrar a cena de estupro como se aquilo tivesse sido arte e nada mais.
De um lado do Atlântico, a desfiguração do gesto do ator feito personagem pela virtualização do ato cênico. Do outro lado, a desfiguração física do ator pela violência corporal da encenação mais-do-que-presencial.
Avatar, interessante dizer, oferece uma terceira via, que é a da personagem virtual ser deselvolvida em cima do trabalho do ator - cada gesto de Neytiri, cada expressão facial nos remete à arte de Zöe Saldana.
É bem verdade que em King Kong o melhor trabalho de ator foi o do gorila. Mas Peter Jackson esteve próximo de Avatar a ponto de assinar comentários a uma edição em capa dura com imagens do filme. E competir com Jack Black é ponto para qualquer gorila.
A complexidade de roteiro de Irréversible não ilumina a violência de que se serve. Charlie Kaufman consegue - e em Hollywood - criar roteiros complexos sem que a violência seja a linha mestra.
Tudo considerado, há processos de diluição em curso. Em cantos opostos, francamente antagônicos, estão 2012 (finalmente um filme pior do que Plan 9 from Outer Space) e Irréversible, mas na mesma batalhe de diluição. Enquanto ouso dizer que Avatar, com toda a sua estereotipação do militar, do empresário, do cientista e do herói-necessariamente-americano; e Sinédoque ou outros de Charlie Kaufman são exemplos dessa outra linha, esta sim evolutiva, do cinema.
formspring.me
Que tipo de pergunta você quer responder aqui? Qual assunto?
Arte, literatura.
Vida urbana.
Mas também governo e políticas públicas; direito e processo legislativo.
Art, literature; but also Brazil at large; foreign investment and doing business in Brazil.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
formspring.me
Qual a maior vergonha que você já passou?
Primeiros anos de faculdade, convido a moça pra jantar na Camorra, restaurante que fez história nos Jardins, oferecia pocket-shows de commedia dell'arte e boa cozinha napolitana. Uma pena que fechou. Uma pena maior não ter fechado antes daquela noite.
Jantávamos e eu resolvi cometer um erro que nunca repeti. Comentava que eu era muito seguro de mim mesmo. E que nada me deixava envergonhado. É que tinha vindo o Pulcinella, uma das personagens da casa, e eu tinha caído na velha piada do apito - o palhaço oferece o apito, o tonto oferece a boca, e a boca acaba no dedo do palhaço, péssimo gosto (o da piada e, posso dizer, o do dedo). Ri, como se deve rir nessas horas, quando se é seguro, quando nada nos envergonha, essa balela.
Algum vinho depois, lá do fundo começou a festa de uma pessoa só. Uma moça tinha bebido muito. E entrado no espírito da casa e superado o espírito da casa e agora já era ela mesma uma festa maior do que o lugar, para constrangimento do casal que a acompanhava.
Pagaram a conta, a moça se levantou e seguiu em direção à porta. A direção da porta passava pela nossa mesa, e a nossa mesa ouvia minhas balelas sobre segurança, auto-confiança, o desastre pronto, enfim.
A moça atropelou umas duas mesas antes de se apoiar no meu ombro, olhar nos meus olhos, abrir um sorriso ensandecido e dizer: "Gostei de você, você é isso, você é aquilo, vem comigo, vamos embora". E já ia sentando no meu colo, quando o amigo a segurou. Não segurou o bastante para evitar o beijo.
A esta altura, Pulcinella estava com o dedo na própria boca, a boca da minha acompanhante estava caída sobre o fusilli à putanesca, o cantor com os poucos cabelos cheios de brilhantina desafinava a legatta a un granello di sabbia, e eu me desdizia completamente ao nem mesmo gaguejar.
Fiz inveja ao pimentão que era orgulho da cozinha da casa.
formspring.me
Vc já pensou numa cadeira de rodas elétrica? Se vc não gosta, peço que explique. Desculpe a pergunta, mas é uma curiosidade...
É um exercício aeróbico remar com este brinquedo. E é remar, mesmo, só que ao contrário.
Cadeira de rodas motorizada é para pessoas com complicação nos membros superiores, não é o meu caso. As de "tração animal" (!) permitem que eu me exercite enquanto me movimento. Costumo sair do escritório na hora do almoço e comer no Pátio Brasil, shopping aqui de Brasília, apenas para poder andar perto de 1km. A comida é horrorosa e não compensa o esforço, mas a vida também é feita desses auto-enganos...
Quando estou em férias, ando muito mais. Passei o Natal em São Vicente, onde mora minha mãe. Andei muito por lá. Dia 25, fui do canal 3 até a ilha Porchat - 5,5km, mais ou menos. Em 50 minutos - mas ainda parei pra conversar com o Animal - apelidos de praia.
Vou hoje à noite pra Floripa, e pretendo andar muito pelo "Passeio dos Namorados" em Jurerê.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
formspring.me
If you could have an endless supply of any food, what would you get?
Soybeans. And would sell it worldwide. And then I would get whatever I wanted.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Notas sobre o cenário para 2010
Lula propõe lista tríplice para escolher o vice de Dilma, e incomoda Temer e Sarney.Por trás da lista, Meirelles surge vindo silenciosamente do Planalto para o centro da disputa. Meirelles é o bloco de concreto que não deixa o Governo Lula voar. Lula sabe que precisa de um bloco assim para 2011 - que Dilma não pode ficar sozinha, imperatriz.
COP 15
Serra tropeça nas águas de São Paulo, onde é necessário, e se perde na #COP15, onde era desnecessário – e de onde voltou sem ter agregado coisa alguma, senão uma photo-op com um ator de Hollywood. Suas metas para São Paulo são insuficientes no contraste do que o IPCC pede em Copenhague.
Dilma demonstra sua usual falta de preparo e arrogância, mas desta vez, com seu ato falho, apresentou também sua visão íntima da questão ambiental - um estorvo.
Marina naufraga no seu palanque global. Ciro é uma ausência cheia de vontade.
O Fator Minas
Nisso, Aécio se declara fora da disputa presidencial. Faz todos os seus aliados e apoiadores mostrarem suas caras. Eleva seu perfil.
O PMDB não pode mais tirar Aécio do PSDB para 2010. Caso contrário, estaríamos num dia convulso hoje.
A expressão facial de Sérgio Guerra em todos os jornais, atrás de Aécio, evidencia que o movimento de Minas desagrada o PSDB.
O PT celebra a decisão de Aécio, como se representasse mais espaço de diálogo com Minas.
Aécio deixou claro que ele é o diferencial do cenário político para 2010. Ele é o agregador. Serra e Dilma, mais do mesmo Fla-Flu que tem atravancado o avanço em discussões de mérito sobre políticas essenciais.
A carta-resposta de Serra demonstrou o quanto de desagregador e semeador da discórdia ele tem - justo pelo uso desses termos na negativa. Serra pegou o discurso conciliador de Aécio e usou-o para atacar Dilma, acusando-a de ser quem prega a discórdia. Ou seja, alimentou ele mesmo a discórdia que Aécio queria superar...
Serra e Dilma precisam de Minas. Serra tem São Paulo, mas Dilma tem o NE. Minas assinalou que não vai ser automático seu alinhamento.
Summa operatica:
Aécio deixou de ser o menino turrão que queria brincar de presidente, para se tornar o ponto central da disputa por 2010.
